14 jan, 2008
"Prefeituras distribuem livros e apostilas com erros em São Paulo"
Dez municípios investigados pelo MP gastaram R$91,1 mi na compra de material de má qualidade para escolas
Eduardo Reina, de O Estado de S.Paulo
SÃO PAULO - Uma dezena de prefeituras do Estado comprou, de três editoras de livros didáticos (Filosofart, Múltipla e Expoente), apostilas para o ensino fundamental com erros de toda natureza para distribuir a alunos da rede municipal. Embora o Ministério da Educação (MEC) ofereça material didático gratuito por meio do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), elas gastaram juntas R$ 91,1 milhões nos contratos, sob o argumento de que o material do governo federal é de baixa qualidade.
Mas as apostilas são tão inferiores que, em São Bernardo do Campo, os professores da rede passaram a distribuir cópias mimeografadas de texto aos 44 mil alunos de 1ª a 4ª séries em 2004 e 2005 para dar aulas.
O Ministério Público Estadual (MPE) apura eventuais fraudes na compra dos materiais, algumas feitas sem licitação e superfaturadas. Estão sob investigação as prefeituras de Barueri, Itanhaém, Itu, Limeira, Peruíbe, São Bernardo, Valinhos, Vinhedo e Taubaté, além de outras em outros Estados. O dono da Múltipla, Paulo César Leite Froio, admitiu em uma gravação em poder do MPE que paga 10% de propina aos prefeitos. "É uma tabela", diz. Ele foi diretor comercial da Filosofart e é dono da Múltipla. As administrações negam irregularidades (leia abaixo).
Antártida no Pólo Norte
Fora os problemas legais no processo de compra, algumas apostilas contêm erros de informação e didáticos grosseiros, além de erros de português. No cartilhão de São Bernardo, até o hino da cidade está errado. Em um trecho, é dito que "os meses do ano têm, em média, 30 dias, mas nem todo o dia você terá acontecimentos importantes."
Num dos livros utilizados pelos estudantes de Valinhos, estão incorretos o número de habitantes da cidade, a data de criação do município e até os limites geográficos. O material reproduz, por exemplo, uma famosa ilustração de Rugendas, Navio Negreiro, em cuja legenda se lê "transporte de índios".
Em outro volume, a reprodução de uma foto de comemoração dos 500 anos do Brasil, com uma cruz, atores e pessoas vestindo calça jeans com câmera de filmagem na mão é identificada como uma gravura de Debret de "índios 500 anos atrás". Na cartilha distribuída em Taubaté, a Antártida está localizada no Pólo Norte.
Superfaturamento
"Qualquer editora de fundo de quintal faria um material desse tipo", disse o promotor Luiz Alberto Segalla Bevilacqua. No dia 5 de janeiro, os promotores do Grupo de Atuação Especial Regional de Repressão ao Crime Organizado (Gaerco) de Campinas foram até a sede da Múltipla, na capital, para cumprir mandado de busca e apreensão de material.
Eles avaliam que o esquema se estenda também a Rondônia, Rio, Espírito Santo, Piauí e Mato Grosso. "Há indícios de que contratos tenham sido feitos nas regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte", disse Silveira Filho.
Informações colhidas pelos promotores mostram que os livros fornecidos pelo governo federal custariam em torno de R$ 26, enquanto o preço médio de uma apostila elaborada pela Múltipla é de R$ 43,50, dependendo do contrato, mas pode chegar a quase R$ 200.
Em dezembro, o MPE recebeu novas denúncias envolvendo outras administrações, que também serão investigadas. "Não podemos generalizar, mas é possível antever um esquema ilegal em algumas", diz o promotor Amauri Silveira Filho.
O MPE tem em mãos uma gravação na qual o dono da Múltipla, Paulo César Leite Froio, diz que os livros não têm suporte do MEC. A editora trata a venda de apostilas para as prefeituras como "projeto educacional".
A Filosofart chegou a distribuir para as prefeituras com quem pretendia fechar negócio um manual com argumentos para embasar a contratação sem licitação. O conteúdo dessa documentação é reproduzido em pareceres de vários departamentos jurídicos de prefeituras, como Barueri, São Bernardo, Valinhos, Itanhaém. Em 2006, a editora Múltipla mudou de nome. Antes a razão social da empresa era Multiprinter.
Paulo César Leite Froio foi procurado várias vezes pelo Estado e não foi localizado. Também não deu retorno aos recados deixados.
Polêmica
Em setembro, a qualidade dos livros didáticos foi tema de debate por conta de trechos de uma coleção distribuída gratuitamente para milhões de alunos pelo governo federal: Nova História Crítica, de Mário Schmidt. Os livros haviam sido rejeitados em 2007 na avaliação feita por técnicos contratados pelo MEC por veicular propaganda ideológica.
Segundo a Editora Nova Geração, responsável pela publicação, foram comprados e distribuídos a escolas de todo o País 9 milhões de livros nos últimos anos, que continuam a ser usados - as compras são feitas a cada três anos.
A coleção menciona que a propriedade privada aumenta o egoísmo e o isolamento entre as pessoas e que o Movimento dos Sem-Terra (MST) se tornou um importante instrumento na luta pela justiça social no Brasil. Critica o acúmulo de capital da burguesia e faz elogios ao regime cubano.
11 jan, 2008
-“Tudo está na palavra”, disse Neruda - Agora Online 30-12-2007 Gutemberg cruz
10 jan, 2008
Dez passos rumo ao desprestígio - Alcir Pécora - O Estado de S. Paulo - 30.12.2007
Repassando 2007 mentalmente, me vieram à cabeça as seguintes tendências no campo da literatura, umas novas, outras que só confirmam as observadas nos anos mais recentes: (Mais)
9 jan, 2008
O autor de mais de mil livros
(Artigo publicado no site www.verdestrigos.org em 5 de janeiro de 2008)
"Quem vê o homem de ascendência oriental caminhar tranqüilamente pelas ruas de Gonçalves, pacata cidade do sul de Minas Gerais, com um saco de verduras ou um cachimbo nas mãos, não imagina se tratar de um escritor frenético. Hoje, ele escreve, em média, três livros por ano, mas já foram três por dia. José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue, um médico paulista de 59 anos que abandonou as cirurgias de tórax para se dedicar à paixão de infância, aprendeu a ser ágil com as idéias e colocá-las no papel por uma questão de sobrevivência. Coisas de escritor brasileiro. Hoje, já são mais de 1.070 livros publicados, um recorde mundial.
A carreira de escritor começou em 1986, aos 40 anos, com ‘Os Colts de McLee’, um pocket book publicado por uma editora carioca, que vendeu 15 mil exemplares. Com o sucesso, vieram outros, centenas de outros livros de bolso, com histórias policiais, de western, amor, guerra ou ficção científica. Mas o que as editoras pagavam a Ryoki era tão pouco que mal dava para cobrir os gastos com o papel, a fita da máquina de escrever e o envio do original pelo correio. A solução foi aumentar a produtividade. ‘Eu tinha de escrever muito para garantir um padrão de vida mínimo. Foi por isso que eu sempre escrevi tanto’, revela a NoMínimo.

