9 jun, 2009
Bibliotecas pessoais: como morar em uma "bibliotecasa"
Casal tem 10 mil volumes no seu acervo, que ocupa todos os cômodos do apartamento onde reside

No apartamento de 150 metros quadrados em que Alberto Albergaria, 63 anos, e Noriko Ohta, 59, vivem, os móveis são um detalhe. Objetos como cama, mesa e sofá até parecem atrapalhar. É que essa casa na verdade é, antes de qualquer outra coisa, uma biblioteca. Ou uma bibliocasa. Há livros nas paredes de todos os sete cômodos, incluindo o banheiro. Ao total, a partir da contagem mais recente, são mais de 10 mil títulos.
Já na sala de entrada, dez metros de extensão de parede preenchidos com obras de Psicanálise, Filosofia, Literatura, Mitologia Grega e Física. Albergaria é físico. Trabalhou na Usina de Angra, na área nuclear, mas cansou do caos que, na ótica dele (e de muitos), toma conta do Rio de Janeiro. A sua companheira, a jornalista Noriko, com passagem por O Globo e Jornal do Brasil, também quis colocar um ponto final na temporada existencial em território carioca. Até fizeram uma lista, com dezenas de motivos para não retornar à Cidade Maravilhosa. Está na porta da geladeira. Para eles, desde 2005, viver é sinônimo de pulsar em Curitiba.
A sala (ou quarto?), onde há uma esteira e uma bicicleta ergométrica tem uma das paredes tomada por livros de saúde. Um, dois, três passos e o corredor, onde há (entre tantas opções) obras de paranaenses. Dante Mendonça, Dalton Trevisan, Jamil Snege são alguns. Há o texto "Curitiba, a Fria", do forasteiro Fernando Pessoa Ferreira. Coincidência ou não, todos autores que ajudam a entender esse jeito de ser humano em solo curitibano. Noriko e Albergaria, pedestres por opção, começam a caminhar em rotas sugeridas em páginas ficcionais. Estariam em busca de uma Curitiba perdida?
Se houvesse um novo dilúvio, e o nível das águas não ultrapassasse o altura do quinto andar, Albergaria e Noriko não teriam dificuldades para sobreviver. Plantam e colhem tomates e outros vegetais comestíveis. Teriam muito o que fazer. Eles não leram tudo o que está nas estantes do apartamento do Bigorrilho. O acervo é uma reserva para o futuro.
Alguém poderia dizer que a "bibliotecasa" é uma espécie de bunker. Aqueles livros todos até sugerem uma muralha que os protegeria. Do quê?"Da eventual falta de curiosidade", dispara Albergaria. Ele, após fazer análise, passou a estudar o assunto. Lacan e Freud fazem parte de suas leituras, constantes e aprofundadas.
De repente, Albergaria revela qual o tipo de leitura que mais gosta. "A que conduz ao silêncio.Um exemplo? O romance Extensão do Domínio da Luta, de Michel Houellebecq".Mas, como todo leitor voraz, não tem autor nem livro preferido. Transita (com igual prazer) de Proust a Richard Feynman, de Guimarães Rosa a Fernando Sabino, de Oscar Wilde a Nassim Taleb. E Noriko? "Noventa por cento da biblioteca é dele" (Albergaria), despista.
