30 out, 2007
Biblioteca Pública sofre com vandalismo
Por Luciana Cristo, 28/10/2007- Jornal O Estado do Paraná
A perda e a degradação de obras literárias nas bibliotecas é uma realidade no Dia Nacional do Livro, comemorado amanhã. Na Biblioteca Pública do Paraná (BPP), negligência e vandalismo são atos corriqueiros, sem contar os livros que são emprestados e não são devolvidos. De janeiro a setembro, já são 2.028 empréstimos que ficaram sem retorno. Só em 2006 foram 2.131 livros que não voltaram para a BPP.
Além do roubo de livros, a deterioração das obras é preocupante. “São figuras recortadas, páginas destacadas, além das pessoas que deixam a capa e levam o miolo do livro”, enumera a chefe da Divisão de Preservação da BPP, Bety de Luna, enquanto mostra os livros rabiscados, grifados, com rasuras e opiniões.
Bety de Luna: rabiscos, destaques, rasuras e opiniões.
O roubo dos 180 volumes (109 títulos) da coleção de obras raras, no ano passado, teve prejuízo de quase R$ 500 mil e continua sem solução. Entre as obras perdidas estavam exemplares de autores como Érico Veríssimo, Graça Aranha, Lima Barreto, Machado de Assis e Victor Hugo. A investigação está sob responsabilidade do Centro de Operações Especiais (Cope). Quem tiver informações sobre as obras podem contatar a biblioteca pelo (41) 3221-4951.
Negligência
O descuido do leitor com as obras que manuseia, deixando-as com manchas ou molhadas, deteriora as páginas, causando fungos e bolor. “O medo da punição faz com que as pessoas não comuniquem o problema na hora da devolução, ficando com o livro molhado 15 dias. O ideal é que o incidente seja alertado tão logo ocorra, para facilitar o reparo”, explica Bety.
Usuários que emprestam um livro que está com folhas soltas ou que acabam rasgando páginas, tentam consertar, colocando fitas adesivas, que prejudicam ainda mais a conservação da obra. “Colocados de qualquer jeito e em excessiva quantidade, de nada contribuem na restauração”, esclarece Bety.
Para tentar recuperar as obras, a restauração exige um trabalho apurado e cuidadoso, como a desmontagem e o refilamento do livro. Em casos de recorte de figura apenas, a seção de preservação preenche os espaços faltantes com papel. “Assim, outros leitores podem tomar consciência. Preservamos o livro, mas o aspecto visual foi perdido”, lamenta. Quando há outros exemplares de um livro que teve páginas destacadas, um xerox ocupa o espaço.
Sebos, bons locais para “garimpagens”
Na contramão do vandalismo, estão os amantes de livros e da garimpagem de obras raras e edições esgotadas em sebos. O dono do sebo Osório, Alejandro Rubio, diz que a maior procura é por livros que marcaram a juventude dos leitores, assim como livros polêmicos e os que foram proibidos durante a ditadura militar.
Rubio conta que alguns freqüentadores acabam tendo surpresas na procura de um livro. “São muitas as histórias de alguém que chega aqui e encontra um livro com a sua dedicatória que deu de presente. Quando percebe que a pessoa que o vendeu sequer leu o exemplar, a irritação é ainda maior”.
Ao longo dos 23 anos em que mantém o sebo, Rubio percebeu uma mudança no perfil do público. “Com a vida mais agitada, hoje as pessoas não têm mais tempo de parar e pesquisar as obras. Agora elas chegam com o nome do livro desejado na mão, compram e vão embora”, afirma. Com cerca de 50 mil livros à disposição dos clientes, o sebo possui como seus livros mais antigos obras de leis em latim, dos séculos XVI e XVII, que estão em exibição.
Para garantir a qualidade dos livros, o sebo Osório também faz um trabalho de restauração. “O cuidado principal está em preservar as características originais da obra. A nova costura dos cadernos que compõem o livro é a tarefa mais difícil”, explica o funcionário Edevaldo Marques.
Fantasia
A criação de um mundo de fantasia, aliada à afetividade dos pais enquanto contam uma história de dormir para os filhos, pode ser o primeiro passo para despertar o interesse pela leitura. É o que acredita a bibliotecária e chefe do setor infantil da BPP, Neide Mutti.
Estímulo esse que deve ter continuidade na escola. Porém, a inadequação das bibliotecas e de pessoal adequado para atender os pequenos contribui para o desinteresse pela prática, segundo a bibliotecária. “Muito mais que alguém para recolocar o livro na estante, o bibliotecário responsável deve conhecer um pouco de didática e participar na elaboração da proposta pedagógica, interagindo com os professores”, defende Neide, para quem sempre é tempo de começar a ler. (LC)
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