5 nov, 2007
Viver de livros antigos- Jormal Primeiro de Janeiro - Portugal - 5 de novembro de 2007
Apesar de todas as inovações que nos desafiam no dia-a-dia, a profissão de alfarrabista persiste no tempo e mantém-se fiel à sua ideologia: Vender livros antigos. Nos alfarrábios, além da qualidade dos livros antigos, procura-se preços acessíveis ao bolso de cada um.

De acordo com os dicionários, alfarrabista é aquele que compra e vende
alfarrábios, ou seja, livros antigos ou velhos. Uma loja de alfarrabista é uma
loja de livros usados ou antigos, isto é, é um estabelecimento comercial de
compra, troca e venda de livros ou revistas usadas. Nos tempos que correm, os
alfarrabistas são conhecidos por “livreiros-antiquários” e todos os que ainda
subsistem existem graças ao prazer da leitura e gosto de folhear, por isso,
dedicam-se de corpo e alma a serem “vendedores de papéis”.
Num leque
não-mensurável de variedade de géneros, autores e categorias, nos alfarrabistas
é ainda possível encontrar desde as histórias do passado que não se querem ver
esquecidas até às histórias dos nossos dias, em livros que não primam por ser
velhos, mas sim antigos.
Os coleccionadores de livros antigos ou alfarrábios
não existem em grande número. No entanto, na cidade do Porto permanecem alguns
já bastante conhecidos por todos e que carregam consigo a história daquilo a que
também se pode chamar “arte”. Isto porque a arte pode ser só e simplesmente um
dom. E o que são os alfarrabistas senão pessoas que têm o dom de conhecer e
saber lidar com livros, sejam novos ou antigos?
Viver entre os
livros
José Soares é um exemplo disso. Alfarrabista há já quase 50 anos,
tornou-se um coleccionador de livros de renome na cidade. A “arte” caiu-lhe nos
braços por acaso, mas não é por esse facto que nutre menos interesse ou estima
pelos livros. «Livros Bonjardim» é o nome do negócio que começou por ser um
farrapeiro mas que, graças às fotonovelas que a esposa tanto gostava de ler,
começou a suscitar interesse nas pessoas que iam passando. “A minha mãe
costumava ler aqui as fotonovelas que tanto idolatrava e há medida que os ia
acabando, ia pondo na montra. A determinada altura as pessoas que passavam iam
entrando e propondo trocas com outras edições e foi assim que tudo começou”,
contou Teresa Eduarda, filha de José Soares, que divide o espaço da loja com seu
pai e outra irmã. De troca em troca, o negócio foi-se criando até chegar àquilo
que é hoje. Actualmente, a «Livros Bonjardim» tem mais de 500 mil livros em
armazém e conta já com meio século de história, chegando agora a ter até uma
página de venda na Internet. José Soares gosta bastante daquilo que faz e foi
com a felicidade estampada no rosto que contou ao JANEIRO que adora estar ao
balcão. “Gosto muito de falar e de lidar com as pessoas. Conhece-se gente com
personalidades e características completamente distintas”, explicou. A verdade é
que naquele espaço situado na Rua do Bonjardim, para além de livros, troca-se
também carinho. A relação que se estabelece entre o proprietário de uma loja
antiga como esta e as livrarias actuais, só tem em comum o facto de se venderem
livros, porque a proximidade entre vendedor e cliente vai para além dos lucros
deste negócio, dizem.
Há uns tempos que se fala de “crise” e a palavra já
quase virou moda, mas este alfarrabista que vive deste negócio continua a
defender o optimismo que tanto o caracteriza. “Vai dando para pagar as
despesas”, diz. Apesar desta dita crise, José Soares valoriza o seu trabalho.
“Se não houvesse alfarrabistas, onde é que as pessoas sem possibilidades
financeiras poderiam comprar livros para cultivar o seu gosto pela leitura? Onde
é que as pessoas podiam depositar os seus livros quando o espaço que têm em casa
já não é suficiente?”, questionou. Para além disso, vê nesta “arte” a forma de
fazer os livros circularem por várias mãos, sem nunca se perderem. Isto porque
estamos a falar de livros que em alguns casos já não existem no mercado e que só
a troca proporciona que a mesma obra tenha vários donos.
Perfil do
cliente
Os clientes são o mais variado possível. Desde os mais ricos aos mais
pobres, dos mais novos aos mais velhos e até dos mais cultos aos menos sábios. O
único pré-requisito é que partilhem um forte gosto pela leitura.
José Soares
contou-nos que na sua livraria as mulheres procuram essencialmente romances e
policiais, enquanto que os homens se interessam mais por livros de cowboys e
banda desenhada.
Com livros disponíveis a partir de dez cêntimos, esta
livraria dispõe recentemente de uma nova ferramenta, no seio de um sem número de
ferramentas antigas. A Internet é então o novo meio para se adquirir livros na
livraria «Livros Bonjardim». Este serviço adequa-se maioritariamente a clientes
antigos que se encontram a viver no estrangeiro. Isto porque em alguns países
não existe possibilidade de se adquirir obras portuguesas. Deste modo, esses
clientes solicitam o livro desejado via Internet, sendo o livro posteriormente
enviado por correio. É tão fácil quanto isso. Apesar de já existir há três anos,
é essencialmente neste último que, de mês para mês o volume de vendas pela
Internet tem aumentado. Para além de clientes estrangeiros, a livraria «Livros
Bonjardim» tem compradores de várias partes do país. Exemplo disso é Maria
Alexandrina Veiga, natural de Bragança. O JANEIRO foi encontrá-la quase perdida
numa imensidão de livros “de amor”, dos quais confessou não abdicar. A
professora agora reformada deslocou-se ao Porto para uma visita ao médico,
contudo, não quis desperdiçar a oportunidade para visitar a livraria e levar
para casa cerca de quatro dezenas de livros. “Venho cá poucas vezes, mas quando
venho, vou embora sempre bastante carregada”, disse. Professora durante 40 anos,
confessou que rodear-se de livros românticos é a única coisa que a deixa
“alegre” e verdadeiramente “feliz”.
O sabor da tradição
Inicialmente
instalada na antiga Travessa da Fábrica, no número 48, sensivelmente no local
onde ainda hoje permanece, artéria que é hoje denominada de Rua de Avis, foi
fundada por José Moreira da Costa, em 1902. Antigo caixeiro, ganhou o gosto
pelos livros e rapidamente se tornou alfarrabista. Editou livros, publicou
numerosos catálogos e promoveu alguns leilões de volumes, tendo por isso ficado
conhecido nesta área. Aquando do seu falecimento, a livraria foi passando de
geração em geração. Foi na segunda geração da família, com Elisa Duarte, uma
grande conhecedora de livros que esta livraria se tornou o centro de tertúlias
de distintos homens de letras e amantes de livros. Foi durante este período que,
correspondendo ao interesse de muitos camilianistas frequentadores da livraria,
Elisa Duarte promoveu em 1952 uma edição similada da obra de Camilo Castelo
Branco «A Infanta Capelista», numa tiragem limitada a 50 exemplares.
Em 1965,
com o desaparecimento de Elisa Duarte, a livraria foi herdada por Maria Elisa
Gonçalves, sua única filha, que se manteve a partir de então à frente do
estabelecimento, até que, em 1987, já com idade avançada, constituiu uma
sociedade com os seus filhos e marido. Em 1999, foi o tempo do seu filho, Miguel
Carneiro entrar para a sociedade e inaugurar a quinta geração da dinastia de uma
das mais antigas famílias de livreiros portuenses.
Apesar de algumas
dificuldades que vão surgindo com o passar do tempo, “ainda há muita gente a
procurar o livro antigo e usado”, explicou Miguel Carneiro. As razões são as
mais óbvias. Os livros usados ainda despertam interesse no seio de muitos
degustadores de livros, porque existem algumas obras que já não são produzidas.
Por outro lado, ainda se procuram livros antigos, porque o factor de antiguidade
desperta interesse redobrado em vários bibliófilos. “Assim sendo, as lojas de
alfarrabistas são a única forma de os amantes das folhas de papel conseguirem
obter, por exemplo, uma primeira edição de uma qualquer obra”, aclarou.
Com
um público heterogéneo, aquilo que mais se procura nesta livraria são “novidades
velhas”, corroborando o seu lema: «Mesmo velho é um bom amigo». Miguel Carneiro
explicou que os clientes não se dirigem à sua loja à procura de livros
específicos, “procuram sim algo que não conhecem e nem sequer sabem que existe”.
Habitualmente, a Literatura Portuguesa é o género mais procurado. Apesar de
adquirirem as suas obras através de particulares que se desfazem dos livros ou
em leilões, Miguel Carneiro queixou-se do facto de cada vez ser mais difícil
adquirir livros “novos e bons”.
Isso acontece também porque as pessoas estão
a dar cada vez mais valor ao livro, quer seja por gosto ou colecção. No entanto,
Miguel Carneiro explicou que para se consumir livros antigos é “necessário ter
uma sensibilidade e um gosto específico”. Esse gosto não é raro, mas nem todos o
têm. Contudo, os alfarrabistas fazem questão de o partilhar com os seus clientes
e vice-versa. Ficámos então a compreender que é por este facto que os
alfarrabistas funcionam muito em termos de amizades, ou seja, “cria-se
habitualmente uma relação muito grande entre os proprietários e os
clientes”.
